Fiz um texto de 5 páginas no Word. Ia dividir, mas acho melhor jogar logo aqui, com subdivisões, pra quem quiser ir pra alguma parte específica!
A minha ida a Amsterdã foi disparada a mais tumultuada, em todos os sentidos. Começou já com a tragédia de não ter conseguido chegar com antecedência ao aeroporto de Roma no sábado, dia 16, o que me fez enfrentar a fila enorme da EasyJet meio a toa. Acabei esbarrando com um outro brasileiro que também tinha perdido o avião e tava puto porque foi a segunda vez dele – na outra indo para Barcelona. Acabou sendo meio divertido, mesmo após eu ter percebido pelo passaporte que ele era brasileiro e começar a falar em português, o cara só falava em inglês de tão nervoso que estava.
O próximo vôo era só no próximo dia e tinha que pagar multa de 70 euros. Põe mais na conta 30-35 do albergue, possíveis 30 euros de 2 passagens do aeroporto pra estação de trem (porque eles não fiscalizam, se eu pegasse acho que nem pagaria…), e principalmente ter que ficar carregando duas malas pelo aeroporto todo, pegar trem, pela estação (ambos são enormes), e já tinha ficado 5 dias inteiros em Roma, precisava partir pra próxima, além de que Amsterdã era o lugar que eu mais queria conhecer. Rodamos o aeroporto todo e só achamos passagem na KLM por volta de 290 euros. Acabei pegando, e lá se foi todo meu planejamento financeiro da viagem.
Não me arrependi. Logo ao chegar na cidade vi que Amsterdã é a coisa mais linda do mundo. Umas cores inacreditáveis, as ruas pequenas, cheias de ciclistas, e pessoas andando, uma atmosfera incrível, parece aquelas fases de cassino de um videogame, sabe, com as luzes pipocando na sua frente. Depois de deixar as coisas no albergue, fui dar umas voltas pelo Red Light District (aonde eu fiquei) e não se preocupem porque não é nada perigoso. As ruas lotadas, e dizem ter policiais à paisana por toda parte. E todos aqueles canais cruzando as ruas, cheios de patos e barquinhos, as casas mínimas e inclinadas, as luzes nas janelas e nas ruas, um frio do cão (5 graus), foi a melhor sensação que eu já tive na viagem, uma das melhores na vida.
A CIDADE E CONHECENDO O FRIO
Em Roma eu tirei foto pra tudo quanto é lado, de paisagens bonitas à monumentos turísticos, passando pelo dia-a-dia dos romanos e dos turistas (a maioria), mas não sei explicar direito, em Amsterdã eu não conseguia, ao menos no primeiro dia, tirar a câmera do bolso. Parecia que em primeiro lugar, eu não seria capaz de com uma foto transmitir toda aquela sensação que percorria a cidade, seria apenas um fragmento, uma tentativa de aprisionamento de algo muito maior. E também porque parecia que seria um crime se eu fizesse, no estilo de quem quiser experimentar a cidade, tem que vir a cidade, e eu estaria sendo um turista ridículo ao tentar registrar tudo. OK, eu sei que isso acontece em todo lugar, mas ali em Amsterdã, e em especial no Red Light District, a sensação era maior.
Depois de sair de um clima gostoso na Itália, por volta de 15 graus, fui pego no gelo que é 5. Sério, não agüentava direito, a cada cinco minutos eu tinha que entrar numa sex shop, num bar, numa livraria, num fast food ou num cinema pornô (só na recepção, hehe) para passar um minuto me aquecendo, tentar me achar nas pontes e canais da cidade e voltar para a rua. Acho que antes do que ir a algum museu (o que era meu plano), esse é o grande programa de quem chega em Amsterdã, passear a toa, dar uma volta, sentir o clima, olhar as árvores, luzes, janelas com prostitutas, sex shops, coffee shops, etc.
MUSEUS
Dentre os museus acabei indo no primeiro dia no Erotica Museum e no SexMuseum, únicos que ficam abertos até tarde da noite fora do verão e entre sábado e quinta. O Erotica é meio falcatura mas tem uma lojinha bacana, que tem desde artigos de sexo a camisas baratas. Já o Sex é muito bacana, fazendo um panorama de como o sexo (e a nudez) permeia a sociedade desde a pré-história. Esse sim, vale a pena visitar. No domingo eu fui no Rijksmuseum, que é o maior da cidade e no Van Gogh, mas eu tava morrendo de sono então não consegui aproveitar ao máximo. Gostei principalmente do Van Gogh, apesar de não possuir alguma de suas principais obras (Noite Estrelada, que está no MoMA), e tinha “O Quarto de Van Gogh”, genial. tem uma visão cronológica da obra do principal pintor holandês e de suas influências e conterrâneos. Vale a visita. Já o Rijksmuseum tem algumas das principais obras de Rembrandt e outros artistas holandeses e belgas.
O melhor passeio cultural, porém é na Anne Frank Museum. A princípio eu estava um pouco relutante porque além das longas filas, achava que seria aquela coisa meio chata “Sabe aquela menina famosa vítima do holocausto? Então, ela se escondeu aqui”. Mas não, o Otto Frank, pai da Annee quem idealizou o museu não quis idolatrar a filha ou simplesmente fazer uma atração turística. A partir dali, difundir o que foi realmente a perseguição nazista em um nível mais pessoal e acessível e mostrar como esse tipo de violência ainda persiste até hoje, em todos os cantos do mundo, inclusive com os tais dos negativistas (é essa a expressão mesmo?) que teimam em negar o Holocausto e encontraram um porta-bandeira em Teerã.
O museu é mesmo bastante emocionante, cheguei a chorar, e é bizarro pensar em como as oito pessoas conseguiram viver ali por tantos anos. E foi lá, aliás, que eu vi meu primeiro Oscar, da atriz Shelley Winters por seu papel coadjuvante na versão cinematográfica de “O Diário de Anne Frank”, o qual ela tinha prometido ao Otto doar ao Museu se ganhasse, isso durante as filmagens ainda. Deu vontade de (re)ler o livro aliás, já que não cheguei a ler ele todo. E saber se o projeto do governo holandês em exílio de publicar todos os diários e documentos pessoais produzidos durante a guerra foi a frente.
Bom, chega da parte chata de Amsterdã. Cadê as drogas, o sexo, o rock’n’roll? Bom, rock quase não tem, ou não vi. Eu estava doido pra ir num clube de jazz que diziam ser muito bom, mas no domingo a noite estava morto de cansado e na segunda a noite fiquei até tarde pela rua e ainda fiquei arrumando as malas de madrugada. Mas se eu voltar mesmo pra Europa ano que vem – Pordenone e/ou França – definitivamente vou querer passar uma semana em Amsterdã, melhor cidade do mundo. A única coisa ruim é o frio, agora dá pra entender daonde os escandinavos (ou os personagens de “Os Famosos e os Duendes da Morte”) tiram motivos pra se matar. Mas a gente se acostuma, na segunda a noite tava 7 graus e eu só de casaco, tranquilaço.
Sobre as drogas, é maconha por tudo quanto é canto, e eu fiquei num albergue chamado Flying Pig Downtown, que parece ser reduto de maconheiros. Quando eu usava a internet eu ia pro smoking room e tava lá todo mundo fumando, mas estranhamente não ficava um cheiro muito forte no ar, só aquela fumaçinha básica e meio tranquila. A parte mais chata aliás, da viagem teve a ver com as drogas, no último dia (segunda) chegando do albergue a noite, enquanto eu procurava o cartão de entrada que eu tinha perdido, veio um cara na porta tentando me vender algo em holandês, eu acho, ficou meio cara-a-cara. Mas ai eu disse “no” e ele saiu. Depois quando eu sai de novo, chegou um mané, e ficou do meu lado dizeno que queria falar comigo e tal, e eu dizendo que não queria. Ai eu entrei no Febo, que é o Bobs holandês, pra despistar e ele “quando você sair a gente conversa”. Mas eu sai, ele tava olhando pro outro lado, então não tive mais problemas. Mas é só isso, ninguém vai apontar uma arma pra sua cabeça, eu acho, só uns vendedores chatos tentando te encher. Acho que enquanto tiverem sozinhos, é tranqüilo, se tiverem em grupo, aí pode ser tenso. Aliás, no meu primeiro dia também veio um sul-africano estranho, tentando me ajudar, mas no final queria era alugar sua bicicleta pra mim. Quando eu disse que não queria, disse algo do tipo “vá se fuder, se perde por aí então”. qqqqq
Mas então, como eu realmente não curto muito maconha acabei nem fumando, aliás, só uns traguinhos quando fui lá socializar com o norueguês que estava no meu quarto. Nem sei dizer se é boa ou não, ou o quanto é melhor que a brasileira. Falando nisso, foi estranho o quanto eu consegui socializar. Acho que porque a galera era mais largada lá e não aquele povo festeiro de Roma. Tipo, eu conseguia usar a internet tranquilamente no smoking room enquanto no bar de Roma era uma gritaria ensurdecedora. O máximo de “problema” que eu tive em Amsterdã era uma galera tentando puxar conversa, e eu tava meio no clima pra isso. Acabei ficando amigo de uma indiana (realmente elas balançam a cabeça enquanto conversam, descoberta do ano!), de um americano, que tem a família louquíssima, meio parecida com a minha, de um casal de colombianos (tentava falar em portuñol, mas eles insistiam no inglês, o que tem com esses sul-americanos??), de um australiano que ia correr a maratona de Amsterdã domingo de manhã (e coitado dele, cheguei no quarto umas 5h da manhã de sábado pra domingo e ainda fiquei fazendo barulho pra arrumar as coisas), e ainda pegando o tal do noruguês, que era hétero (OI?). Talvez seja a última chance porque em Paris fico na casa do Zaga e em Milão e em Veneza vou ter um quarto individual. Em Madrid mesmo ficando em albergue devo sair mais com a Natália, Rodrigo, Marília e Paulinha (uma amiga minha que tá lá também), talvez só em Berlim ainda fique em albergue, mas espero que não porque já passei há muito tempo do vermelho aqui.
Mas não vou negar que eu perdi um pouco a linha aqui em Amsterdã também. Mas a cidade é tão louca que sei lá te puxa pra suas profundezas. Acabei comprando 4 canecas, porque cada uma era mais linda que a outra. Resolvi que uma vou deixar em Campos, 2 vou usar no Rio (1 é de vidro, pra ocasiões especiais), e talvez eu dê a outra como presente. Comprei umas duas camisas também, mas a mais linda do mundo tava numa loja que já tinha fechado e eu só vi no último dia, vou ter que voltar. Mas engraçado que acabei gastando bem menos do que em Roma, já que comi muito pouco, mas nas duas vezes em que eu jantei e comi carne mesmo, nossa, foram as comidas mais fartas da minha vida, tipo 2 pratos do Outback. Ah e eu acabei comprando 4 pôsteres no FilmMuseum, mas eram baratos, saiu tudo por 14 euros, sendo que 2 são dos grandões. Comparados com o preço em Paris, vale muito a pena, apesar deu ainda estar muito tentado a comprar um de 40 euros gigante de “Querelle” feito pelo Andy Wahrol. Mas o Rodrigo disse que em Madrid tem uma feira que vende pôsteres baratinhos, vou ver lá primeiro. Não sei aonde v ou enfiar tanto pôster, mas tudo bem. Além de que minha mochila já quebrou então tou tendo que usar a bolsa como mala de mão, tá ficando complicado de carregar tanta coisa. Pelo menos descobri o maravilhoso mundo das luvas, que além de prevenir que suas mãos congelem, ainda protegem bastante na hora de carregar tanta mala pesada. Você ainda sente frio e a mão ainda dói, mas pelo menos ela não congela ou se desfaz toda.
Acabei fazendo umas maluquices também, fui na primeira noite sozinho a um bar e boate perto, foram legais, música ótima, mas é aquela coisa meio chata de ir sozinho, além de serem muitos pequenos os clubes. Fiquei pensando se todos clubes lá são assim. Na segunda a noite também resolvi ousar e fui num cinema pornô, pra conhecer. Eu fui num que não era um telão (eles ainda são assim?), mas várias cabines com filmes diferentes, e ou com um cara vendo da porta ou se masturbando lá dentro. E tinha uns buraquinhos do lado em que dava pra espiar. Bizarro, mas como tinha pouca gente, nem rolava pegação geral como eu imaginava, ainda bem! É meio tenso, mas foi mais tranquilo do que eu imaginei que seria. Tipo de coisas que você faz na Holanda, mas não no Rio! Fiquei conversando depois com o atendente que me deixou entrar de graça e ele perguntou se não tínhamos isso no Brasil hehehe Aliás, várias pessoas quando eu chego e digo que sou brasileiro começam a entoar os primeiros versos de “Aquarela do Brasil”, engraçado isso.
Escrevo esse texto no trem de Amsterdã pra Bruxelas, ao som de “Younger Than Yesterday”, do The Byrds. Acabei resolvendo dormir melhor hoje de manhã, e fazer um tour de barco pelos canais de Amsterdã, que seria de graça pois eu comprei o I Am Sterdam (depois falo melhor dele e de outras dicas da viagem, o que vale a pena, o que é furada, etc). Como o Rodrigo disse, o nome desses programas turísticos são sempre geniais! Eu tava com tanto sono que a senhora alemã na minha frente me perguntou se eu tava doente ou só cansado. E não consigo dormir em trem, ainda mais com computador fora da mala fechada, fico tenso de me roubarem, até porque o grande perigo aqui na Europa é mesmo o pickpocketing.Passamos por Haia, agora estamos saindo de Rotterdam em direção a Antuérpia, sede das Olimpíadas de 1920. Já tá dando saudade de Amsterdã. Tá uma chuva meio forte aqui e fico me lembrando, ao passar pelas florestas negras, de um amigo meu do pré-vestibular que fez intercâmbio na Bélgica no ensino médio e a educação física dele era correr na estrada até a fronteira com a Holanda e voltar, uns 40 minutos. Um pouco da sorte que ele deve ter tido de ter contato com esse mundo tão cedo, ou as vezes o contrário também, de tudo ter seu tempo. Vejo as casinhas modernas e meio afastadas uma das outras pela janela, e me lembro dos filmes do Ozu, com aquelas comunidades todas orgânicas localizadas no subúrbio de Tóquio, ou “Meu Tio”, com aquela arquitetura fenomenal. E vai batendo sono, cada vez mais vontade de dormir. Tou vendo que vou ter que sacrificar uma noite em Paris ou Madrir para por o ono em dia.
Engraçado que apesar deu ter tido os melhores momentos da viagem em Amsterdã, tive algum dos piores também. Já disse lá em cima que entendo agora essa sensação que o frio dá, não de querer se matar exatamente, mas um pouco de querer sair disso tudo e ele faz você entrar cada vez mais dentro de você, o que é complicado. Não dá vontade nenhuma de sair, só de voltar pra casa, ou ficar quieto apesar de ter a cidade mais empolgante do mundo do outro lado da parede. No sábado so fui dormir as 4h30/5h, então, no dia seguinte eu acordei as 9h e tava um caco, fiquei o dia todo assim. Ontem também, publicando os textos no meu blogue, conversando, fui dormir umas 3 da manhã, resultado também fiquei um caco hoje. Preciso achar algum tempo para dormir, mas vai ser difícil!.
Mas então, hoje já tenho certeza que um mês é muito tempo para viajar. Estou na prática a 10 dias (outros 10 de Pordenone), e ainda outros faltam 20, ou seja metade de um pouco de vista geral, um terço no turístico. Ao menos vou passar 7 dias com uns amigos, e depois de encarar as óperas de Milão, uma temporada em Berlim em que espero sair com uns brasileiros. Cada experiência nova, cada momento de solidão, cada cansaço que bate, cada vitória, cada coisa nova genial que acabo de ver (a mais recente foi uma linha de moinhos de vento aqui na viagem), bate uma vontade de ir pra casa. Não necessariamente Brasil, Rio de Janeiro ou mesmo Campos. Algum lugar em que eu possa chamar de meu e descansar e espichar as pernas. Pode ser Amsterdã mesmo, ou Paris. Só pra parar de carregar uma mala tão pesada –e não, não vou deixar de ficar carregando quinquilharia de tudo quanto é canto legal, não consigo!